O Governo de Rondônia publicou o edital da concorrência internacional que vai selecionar a empresa responsável pela concessão regionalizada dos serviços públicos de abastecimento de água e esgotamento sanitário da Microrregião de Água e Esgoto de Rondônia (MRAE). O contrato terá prazo de 35 anos e prevê a exploração exclusiva da infraestrutura do sistema em 40 municípios rondonienses.
A licitação ocorre em um momento de intensa movimentação no setor de saneamento no Brasil, marcado por grandes disputas recentes. Entre os últimos vencedores de leilões, destacam-se o consórcio formado pela BRK, Acciona e o fundo Pátria Investimentos, que arrematou a concessão em Pernambuco (dezembro de 2025), o grupo Acciona, que levou a PPP na Paraíba (maio de 2026), a Iguá Saneamento, vencedora em Sergipe (setembro de 2024), e consórcios da GS Inima e Acciona no Espírito Santo (junho de 2025).
A própria Aegea Saneamento vinha de uma trajetória agressiva de expansão, tendo assumido os serviços de 224 municípios no Piauí (outubro de 2024) e três blocos no Pará ao longo de 2025. Contudo, o certame de Rondônia coincide com um período de forte turbulência para a empresa. Recentemente, a Aegea mergulhou em uma crise institucional e financeira após sucessivos atrasos na divulgação de seus balanços de 2025. A revisão de seus critérios contábeis pela auditoria KPMG forçou a reabertura de balanços anteriores, resultando em um corte bilionário em seu patrimônio líquido e na reapresentação de dados de 2024 com maior alavancagem. O reflexo no mercado de crédito foi imediato: agências como S&P, Fitch e Moody’s rebaixaram a nota de crédito da Aegea para o grau especulativo, gerando desconfiança de acionistas de peso, como a Itaúsa, e forçando a empresa a propor um aumento de capital de emergência de até R$ 2,1 bilhões. Para agravar o cenário reputacional, vieram a público os detalhes de um acordo de leniência de R$ 439 milhões firmado com o Ministério Público Federal devido a esquemas passados de propina a agentes públicos para a obtenção de concessões.
Entenda o caso
Mesmo diante desse cenário de reconfiguração de forças e desafios macroeconômicos entre as gigantes do setor, o projeto de Rondônia segue como um dos mais atrativos do país. A licitação tem valor estimado de R$ 8.477.095.656,38, com outorga fixa mínima de R$ 567.651.414,08. A entrega das propostas está agendada para o dia 22 de setembro na sede da B3, em São Paulo.
O julgamento adotará um modelo combinado entre menor tarifa e maior valor de outorga fixa. As empresas deverão apresentar desconto sobre a estrutura tarifária de referência, limitado a 20%. Caso duas ou mais propostas atinjam esse percentual máximo, vencerá quem oferecer a maior outorga fixa acima do valor mínimo previsto no edital.
A concessão deverá assegurar a prestação adequada dos serviços, observando critérios de regularidade, eficiência, segurança, continuidade, universalização, modicidade tarifária e cumprimento das metas e indicadores previstos no contrato. Também deverão ser respeitados os prazos, diretrizes técnicas e normas regulatórias aplicáveis ao setor.
Os documentos de habilitação da empresa melhor classificada serão analisados na sequência do julgamento das propostas comerciais. As licitantes deverão apresentar três volumes distintos contendo garantia de proposta e documentos de representação, proposta comercial e documentação de habilitação. O edital também admite a participação de empresas nacionais, estrangeiras e consórcios, desde que cumpram todas as exigências previstas para habilitação, representação e qualificação técnica e jurídica.
O documento ainda disciplina critérios de participação, impedimentos legais, regras para consórcios, garantias de proposta, procedimentos de julgamento, recursos administrativos, celebração do contrato, constituição da concessionária e pagamento da outorga fixa, além de estabelecer todas as etapas do procedimento licitatório e as obrigações que deverão ser cumpridas pela futura concessionária.